Quem vai pagar a conta do acordo dos caminhoneiros

Custo será de R$ 8 bilhões bancados pelo contribuinte até o final do ano para subsidiar o diesel e compensar Petrobras, mas impacto econômico é muito maior

O governo anunciou na noite desta quinta-feira (24) um acordo com os caminhoneiros para suspender por 15 dias a greve.Estão dentro 8 das 11 entidades que participaram da reunião com o governo. Depois da trégua, haverá novo encontro para verificar se o acordo está sendo cumprido.

O litro do diesel ficará congelado em R$ 2,10 nos próximos 30 dias; nos primeiros 15 dias a diferença em relação à cotação internacional é bancada pela Petrobras. Nos 15 dias seguintes, pelo governo.

Na prática, o ministro Carlos Marun, ministro da Secretaria de Governo, se comprometeu a congelar o preço do diesel até o final do mandato de Michel Temer.

O custo fiscal será de R$ 8 bilhões bancados pelo contribuinte e que irão na prática subsidiar o diesel e compensar perdas da Petrobras.

Paulo Feldman, professor da FEA-USP, fez uma estimativa inicial de que a perda de produção será de no mínimo R$ 30 bilhões em 2018.

“Causou um impacto muito grande na economia, mas o pior problema é o mau exemplo que foi dado. Não se pensou no bem do Brasil, mas em atender interesses corporativos. Ficou claro que é um governo que cede às pressões de qualquer grupo que se associar e conseguir fazer alguma agitação”, avalia Paulo Feldman, professor da FEA-USP.

Veja quem ganha e quem perde com o acordo:

Ganhou: os caminhoneiros

A eliminação do PIS/Cofins sobre o diesel, a principal bandeira de parte da categoria, não entrou no acordo.

O imposto tem peso final nos preços do diesel de 13,6%, segundo a consultoria Tendências. A Cide, que foi suspensa como parte do acordo, tem peso de apenas 1,5%.

Mas os caminhoneiros conseguiram reduzir seus custos por outro meio: o congelamento do preço pago através de compensação do governo para a Petrobras, além de outros benefícios.

O governo do Estado do Rio de Janeiro anunciou que vai reduzir na sexta-feira a alíquota do ICMS sobre o óleo diesel de 16 para 12 por cento. Com isso, estará no mesmo nível do Estado de São Paulo.

Perdeu: o governo

O acordo significa que o governo vai perder a receita da Cide, equivalente a R$ 3 bilhões até o final do ano.

Esta perda será compensada com a volta da tributação sobre a folha salarial em 28 setores, um projeto prioritária do governo e que estava parado há vários meses.

A Câmara aprovou esta reoneração na noite de quarta-feira (23), mas o projeto incluía também a isenção do PIS/Cofins.

Houve confusão sobre os números: a receita perdida chegaria a até R$ 14 bilhões e o projeto terá que ser reajustado sem este item.

Mas o ponto mais importante do acordo de ontem é que o governo que terá que arcar com o congelamento de preço compensando a Petrobras.

A conta é estimada em R$ 4,9 bilhões até o fim do ano, segundo a área econômica. O dinheiro sairá do cancelamento de outras despesas ainda não especificadas. Ou seja, a conta ficou em R$ 8 bilhões.

“Vai ter um custo muito alto em um momento onde o Brasil está passando por uma crise fiscal muito séria”, diz Feldman.

Não piorou: a Petrobras

A Petrobras foi afetada em cheio pela crise com os caminhoneiros. As reduções de preço anunciadas nos últimos dias foram vistas como a volta da ingerência política sobre a estatal.

A Petrobras perdeu 45 bilhões de reais em valor de mercado na bolsa só na quinta-feira e perdeu para a Ambev o posto de empresa brasileira mais valiosa.

Os investidores temem uma volta para a experiência do primeiro governo de Dilma Rousseff, quando o preço dos combustíveis era represado para ajudar a manter a inflação abaixo do teto da meta, levando a perdas bilionárias na empresa.

Em julho de 2017, a Petrobras adotou uma nova política diametralmente oposta: os reajustes seriam quase diários com base no preço do petróleo no mercado internacional e o câmbio.

O preço do diesel subiu 56% desde então e acelerou mais recentemente puxado pela valorização do petróleo e desvalorização do real.

É uma das raízes da atual greve, junto com o excesso de oferta de caminhões e a falta de demanda causada pela crise, que dificultam o repasse do preço do diesel para o frete. Agora, o governo vai passar a subsidiar o preço e os reajustes serão mais espaçados.

Em comunicado, a empresa avaliou o acordo como “altamente positivo e um ganho inquestionável” pois “preserva integralmente” a política de preços ao mesmo tempo que garante “maior previsibilidade” para os consumidores.

Perdeu: a economia

“O bloqueio das rodovias do País prejudica a operação das indústrias, aumenta os custos, penaliza a população e tem efeitos danosos sobre a economia, que enfrenta dificuldades para se recuperar da crise recente”, diz uma nota da Confederação Nacional da Indústria (CNI) nesta quinta-feira.

Todas as montadoras de veículos do país anunciaram que encerrariam a produção nesta sexta-feira, pela falta de peças.

Pelos menos 120 dos 180 frigoríficos de todo o país estavam paralisados nesta quinta-feira diante da falta de insumos, como combustível, para operar.

O prejuízo estimado apenas com as exportações que deixaram de ser feitas nos quatro dias é de US$ 100 milhões, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). (Com agências)