Zombar de atrasados do Enem mostra falha da educação, dizem especialistas

Já virou tradição em domingos de Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), grupos de pessoas se aglomerarem em frente aos locais de prova para torcer pelo atraso de candidatos. A ideia deles se divertir com a decepção de quem não consegue chegar antes do fechamento dos portões e perde a prova, que auxilia no ingresso do ensino superior.

A prática vista por estudiosos na area de psicopedagogia e de violência no ambiente escolar como sintomática da baixa educação no país. ” uma representação do nosso sistema educacional”, diz Sergio Kodato, psiclogo coordenador do Observatorio de Violencia e Praticas Exemplares ligado Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras da USP de Ribeiro Preto.

Segundo Kodato, o comportamento um reflexo do que ja acontece de maneira corriqueira dentro das salas de aula, o bullying. Ele diz haver uma distinção entre rir espontaneamente de quem escorrega e cai, por exemplo, e de algum que esta em uma “situação de perda, de desgraça” como quem perde a chance de fazer o exame. ” bem constrangedor.”

“O outro tem que sofrer mais do que ele [quem debocha], ele tem que saber que tem alguém perdendo algo, e isso reflete sobre como aquela pessoa esta se sentindo.”

“O sujeito que vai ate a porta quer entrar. Ninguem planejou se candidatar por um ano e chegou atrasado porque quis.”

 

CONJUNTURA

Para o cientista politico Joo Trajano Sento-S, pesquisador do Laboratorio de Analise da Violencia da Uerj,  dois pontos que ajudam a explicar esse prazer em humilhar. O primeiro estrutural, a violencia simbolica no ambiente escolar por meio do bullying, da opressão.

O segundo, conjuntural. O momento de crescente intolerancia pelo qual passa o país, “em que elites empresariais escarnecem de políticos e políticos escarnecem do povo”, embasa a prática de atacar quem falha. A desqualificação do outro mútua, diz. “Há uma degradação do respeito recíproco.”

SOLUÇÃO

É preciso enfatizar o que há de “lamentável e negativo” em manifestantes dessa forma. “Elas  no expressam um espirito brincalhão, como um participante poderia justificar. Isso nos lndica, desrespeito.”

Kodato afirma que o que deve ser estimulado para provocar uma mudança comportamental a alteridade no ambiente escolar, “trabalhar a relaçao com o outro que diferente de vocÊ”. “O indivíduo burro aquele que vê o diferente e o menospreza”, diz. “O inteligente suporta, convive e vai aprender com o diferente.”

Alunos vítimas de bullying, perseguidos com o estigma de “perdedores” ou “fracassados” tem que ser trabalhados no ambiente escolar, diz. “Temos que botar eles para produzirem, fornecer sentido para a existencia dessas pessoas. Um dos instrumentos a cultura”, afirma.

 

Folha SP