Fome: Cerca de 400 mil sírios sofrem em Damasco

Entre Abril e Setembro a Amnistia Internacional falou com centenas de pessoas que fugiram à guerra na Síria empurradas pelos bombardeamentos e os cercos impostos pelas forças leais ao presidente Bashar al-Assad, às cidades dominadas por grupos rebeldes e que estão a espalhar a fome.

No relatório “We leave or we die”: Forced displacement under Syria’s ‘reconciliation’ agreements (“Partimos ou morremos”: deslocamentos forçados causados pelos acordos de reconciliação na Síria), publicado hoje, a ONG avalia os efeitos dos acordos feitos entre o governo e as forças rebeldes que levaram à fuga de milhares de habitantes de seis áreas cercadas: Daraya, Aleppo Ocidental, al-Waer, madaya, Kefraya e Foua.

A Amnistia Internacional acusa Damasco de crimes contra a humanidade. “Apesar do governo da Síria dizer que o seu objetivo é derrotar os rebeldes, o seu uso cínico da tática ‘rendição ou fome’ tem envolvido uma combinação devastadora de cercos e bombardeamentos”, disse Philip Luther, diretor da Amnistia Internacional para o Médio Oriente e Norte de África.

“Isto tem feito parte de um ataque sistemático e abrangente sobre os civis que constitui a crimes contra a humanidade.”

Milhares de pessoas fugiram das cidades que habitavam e vivem agora em campos de refugiados desde que o governo sírio impôs cerco às localidades dominadas pelos rebeldes. Nestas cidades é a impedida a entrada de bens de primeira necessidade incluindo alimentos, água, medicamentos e combustível.

Damasco proíbe ainda a entrada de organizações humanitárias.

Há doentes com insuficiência renal que morreram por falta de máquinas de diálise e recém-nascidos que nascem com baixo peso e sofre de desnutrição por falta de leite em pó.

“Dava-lhe de mamar, mas não era suficiente. Ela era muito frágil e não havia nada que eu pudesse fazer. Não havia outra alternativa, por isso ela chorava muito e eu não podia fazer nada … Como é que alguém que acabou de dar à luz e está  amamentando pode sobreviver apenas com sopa”, contou uma mãe, de 30 anos, de Daraya, que deu à luz em Março de 2016.

A maior parte dos sírios que permaneceram nas áreas cercadas comem apenas uma refeição por dia. As crianças são as que mais sofrem.

“O cerco não me afetou tanto quanto afetou as crianças. O meu neto, de dois anos, não tinha leite em pó ou outro nutrientes necessários porque eu não tenho o dinheiro suficiente para pagar os preços pedidos”, contou uma avó de Aleppo que, para além dos três filhos, cuida do neto que perdeu os pais num ataque em 2015.

A Amnistia Internacional acusa ainda o governo sírio de destruir campos cultivados em Daraya e Madaya e de atacar diretamente hospitais e habitações para obrigar a população a fugir.

“É preciso meses até morreres de fome. Mas os ataques áreos era outra história. Podíamos morrer por um estilhaço de uma bomba num fracção de segundo. Ninguém estava seguro dos ataques aéreos: civis, rebeldes, edifícios, carros, pontes, árvores, tudo era um alvo”, contou um morador de Aleppo.

A organização acusa também as forças rebeldes de atacarem a população através de bombardeamentos e atiradores furtivos.

A Amnistia conclui que os ditos acordos de reconciliação entre Damasco e a oposição não tiveram em conta a segurança das populações e chama a atenção para o sofrimento que, pelo menos 400 mil pessoas que ainda vivem em áreas cercadas, estão sujeitas.

A organização apela a Damasco que levante os cercos e permita a entrada imediata de ajuda humanitária. Pede ainda ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que refira a situação na Síria ao Tribunal Internacional de Justiça para que os crimes contra a humanidade sejam punidos.

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